sábado, 16 de maio de 2015

Para nós que acreditamos

Tenho sentido vontade de te falar algumas coisas, mas são poucas. As coisas e o tempo que quero gastar para dizê-las. Não sei por quê, mas tenho me mantido em silêncio desde que. E não é por nada não. só é. Sabe quando as coisas simplesmente são? Pois, acho que é por aí.

É a ordem natural dos astros (para nós que acreditamos neles). Fui avisada de que isso aconteceria: apesar da passagem de Júpiter na casa 7, o silêncio tem falado cada vez mais alto. O mundo lá fora precisa de palavras, o tempo todo. E eu falo, muito, não me dói, mas no final do dia já sinto como se eu começasse a me preparar para o dia seguinte: preciso, inevitavelmente, recuperar as cordas vocais. Silêncio, por favor, dentro e fora.

Dentro. fora. dentro. fora. dentro. Fora as portas se abrem numa velocidade incrível. Dentro a porta é uma só, pequenininha, e quase sempre está aberta pela manhã: ainda gosto muito das manhãs, ainda. Mas acho que vou deixar de gostar. Você faz muita falta pelas manhãs. Tenho sido mais econômica: quase tomo café enquanto desço as escadas. Aliás, não temos feito café para tomar. 

Reparamos que a casa fica muito mais arrumada sem você aqui. A capa do sofá, que vivia desajeitada e que te incomodava tanto, nos recebe todos os dias com um sorriso amarelo de tão impecável. Fato é que nós não sentamos no sofá. É você que senta. E ai a gente a senta também.

A geladeira está cada dia mais vazia. Hoje eu joguei duas caixas de leite fora. E tive que fazer leite quente com leite em pó. O engraçado é que eu quase nunca reparei na geladeira quando ela esteve cheia. Impressionante o impacto do vazio para certas coisas, não é mesmo?

Tenho adiado tudo. Absolutamente tudo. Achei que era cansaço, talvez seja mesmo, mas não consigo sequer marcar um médico. Meu trabalho é a exceção, graças à tal da cabra (para nós que acreditamos nela). Todo o resto está pendente. E a angustiante consciência disso, por si só, não tem sido o suficiente para que eu consiga me movimentar.

Outro dia desses abri, sem pretensão alguma e quase sem perceber, uma porta dessas que levam para dentro. Ela entrou. Há pouco. Tem me feito bem, mas tenho sentido medo também. Desacostumei, acho, com as visitas. Principalmente essas que mudam um pouco a configuração dos móveis e a cor das paredes. Mas faz bem mudar, não faz? Faz bem abrir a porta, não faz? Mesmo que seja para uma visita breve. Arejar a casa. Novos ares. Se bem que, cada dia que passa (e olha que ainda não se passaram muitos), tenho tido mais vontade de tê-la por perto. E talvez eu queira mesmo que ela fique. Em casa. Por um tempo menos breve.

No mais, é isso, estamos crescendo bem. Espero que você também.
Com muito amor e saudades,