sábado, 1 de novembro de 2014

Casa.

A escrita às vezes é um tanto quanto urgente. Não a escrita em si, mas a expressão explícita de uns e outros sentimentos. Poderia ser um grito, uma música, um choro, um abraço. Algumas coisas precisam simplesmente sair de dentro da gente: ou porque são grandes demais, ou porque falam alto demais, porque pesam, porque voam.

Minha casa tinha uma cozinha: uma cozinha com todas as panelas e eletrodomésticos em diferentes tons de vermelho. E era isso, só. Às vezes tinha também um cachorro grande, de pelo macio e brilhante transitando pela minha cozinha vermelha. E era isso, só. Um pouco estranho uma cozinha com um cachorro peludo e macio às vezes. Ele era macio sempre, o cachorro, mas estava na cozinha às vezes. Só.

Sempre foi muito doce pensar na minha casa. Casa é, para mim, aquele tipo de sentimento que a gente recorre sempre que precisa estar em paz ou confortável de alguma maneira. Por mais que Sagitário tente, eu não consigo morar no mundo. Preciso, quase sempre, estar em casa.

E a gente cresce, inevitavelmente. Comprei umas janelas enormes para a minha cozinha. Gosto que ela tenha madeiras nos bancos, na mesa e nas colheres, pra que ela fique confortavelmente úmida quando estiver chovendo. Achei importante ter uma frigideira amarela. Precisávamos disso. Os utensílios estão dependurados: conchas, escumadeiras, pegadores, facas. Uma tábua de cada cor para que eu corte legumes no verde, frutas no azul e carnes no vermelho. A frigideira já é amarela e a janela já é grande o suficiente. Às vezes o cachorro peludo e macio.

O mundo vai perdendo um pouco o mistério: ele é grande mesmo, i-men-so. Mas vai ficando mais palpável. Vai chegando o dia em que você sabe que não deve começar frases com ‘mas’, mas começa mesmo assim. E a gente cresce, inevitavelmente. Por essas e outras coisas, não tenho mais aquele monte de amigos. Os filtros que estão no movimento de dentro pra fora quase desaparecem. Passamos a filtrar mais o que vem de fora pra dentro. Somos mais do que fomos antes. Somos. Eu. Sou.

Decidi, então, por uma bancada no meio da cozinha. É de madeira também, não consegui fugir disso. Três bancos de um lado, três bancos de outro. Suficiente. Tem muito espaço na cozinha, porque gosto de pensar na ideia de que um dia pode ser que venham oito ou dez pessoas. Ainda gosto muito das pessoas. Só continuo sem saber lidar muito bem com o fato de juntá-las todas num lugar só.

Tem sempre aquela luz do sol que bate nas gotas d’água. Por isso o tamanho dessas janelas. Para que minha cozinha tenha sempre cor de luz-do-sol-em-gota-d’água. E as panelas vermelhas, os utensílios pendurados, o amarelo, o azul, o verde. O conforto úmido da madeira. Não falta nada.

Ouvi um latido, olhei pela janela e o cachorro macio e peludo agora corre em um simpático pedacinho de grama. Verde e macia. Acho que é uma espécie de quintal: metade varanda, metade jardim. Comprei uma porta para a cozinha. E uma estante pra varanda: três livros, por enquanto. Minha casa agora tem um jardim.

E a gente cresce, inevitavelmente.